Armação dos Búzios, Cultura

Quilombo de Baía Formosa conta sua história percorrendo trilhas de seus antepassados

Os caminhos ainda estão lá e revelam muita história. Apresentam a vida e cultura de homens e mulheres que aqui chegaram em navios negreiros trazidos do continente africano, contam a própria história de nascimento de Búzios e de construção do nosso país.

 

Seguindo por trilhas no meio da mata densa, quilombolas da Baía Formosa, em Búzios, refazem os caminhos de seus antepassados e passo a passo, literalmente, vão revelando detalhes de sua cultura, história e conhecimento da natureza, para quem se dispuser a caminhar com eles.

 

Diversos são os caminhos. Várias trilhas que cortam o bairro da Baía Formosa, fazem parte do roteiro quilombola. Com diferentes graus de dificuldade, as trilhas estão sendo preparadas para receber turistas em grupos guiados. Gente interessada em aventura, natureza, e muita cultura.

 

Trilha Manoel e Cezarina

 

Situada no Parque Estadual da Costa do Sol, a trilha batizada Manoel e Cezarina, inicia próxima à estrada Búzios-Cabo Frio e leva à praia do Kalunga. Logo no início um belo e instigante presente da natureza, um círculo de pedras de quartzo, tão brancas quanto lindas. Dispostas ali há milhões de anos, energizam com sua beleza e deixam os visitantes encantados.

 

Seguindo para dentro do parque, a paisagem surpreende a todo instante, numa mistura de mata atlântica com restinga e espécies de clima semiárido, como o cerrado. Orquídeas, pitas, cactos, jabuticabeiras, aroeiras, um mangue paraíso dos guaiamuns, e de repente um mar de bromélias, e um mar de espadas de São Jorge. Aí se aprende que estas últimas são espécies invasoras, pois foram trazidas no porão dos navios negreiros, servindo de forro para deitar, e porque eram parte importante dos rituais africanos.

 

– Olhem aqui, a gente usa para artesanato e cestaria. É o cipó branco. Se raspar assim com o facão, ó, fica branquinho. Esta fruta é sabão de macaco. Você esfrega e faz espuma que nem sabão – se adianta Beth, guia e uma das responsáveis pela abertura das trilhas para o público, e pela união dos quilombolas de Baía Formosa em torno da valorização e manutenção de sua cultura.

 

Juntando os seus, Beth conseguiu que a comunidade quilombola erguesse com muita garra a bandeira de suas origens, e também a sede do quilombo. Aos poucos, o esforço do grupo foi conquistando parceiros como a Prefeitura de Búzios, que apoia o projeto das trilhas e já cedeu um terreno na Baía Formosa para a construção de um centro de cultura quilombola.

 

Aliás, esta é mais uma etapa do passeio. Última e deliciosa etapa. Um almoço com sabor de roça, feito no fogão à lenha pilotado com vontade por Lucineia, Marisa e Lenice, na atual sede do quilombo, regado a café tirado no coador de pano. Mas isso é a recompensa final, ainda tem chão pela frente, só estamos no meio do passeio.

 

Cinco pedras arrumadas no meio do caminho são o mistério da trilha. Elas significam que algo foi enterrado ali. Provavelmente pessoas. Velhos e crianças. Os diferentes tamanhos das pedras indicam isso, explica a guia.

 

Mais chão, e a vegetação muda radicalmente. A praia se aproxima.

 

– Bem-vindos à praia do Kalunga – grita Beth, já esperando ouvir as exclamações de alegria e deslumbre total pela estupenda maravilha que é o lugar.

 

Kalunga é palavra africana que significa mar, imensidão e também linha do mundo dos mortos.  

 

– É a travessia dos mortos. Dois mundos, montanha de um lado, rio no meio, montanha do outro lado. É o que a gente encontra aqui, nesse lugar – e a guia aponta para o mar. Realmente. É o que vemos lá. Mas não é só. Tem as pedras que contam a história de separação dos continentes. Mais um ponto de ligação com a África. Localizada no limite da rachadura das placas que formavam os continentes, Búzios tem as rochas por testemunha do que ocorreu há 200 milhões de anos. Pedras de diferentes cores e texturas formam um bloco único, que parece moldado por alguém, devido ao traçado absolutamente reto das pedras. Local que é ponto de pesquisa da geóloga Kátia Mansur da UFRJ. Tão precioso quanto o refrescante mergulho nas águas limpas de Kalunga. Um prazer a mais. Imperdível.

 

Texto Maria Fernanda Quintela/ Ascom Búziosquilombo

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